Manobra de Epley: o tratamento da VPPB, passo a passo
Por Dr. Pedro Stapleton-Garcia · Otorrinolaringologista

A vertigem é uma das queixas mais assustadoras em Otorrinolaringologia — e também uma das que, na sua forma mais comum, tem solução mais rápida. Quando a causa é a Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB), um procedimento simples, feito em consulta, pode resolver os sintomas na própria sessão: a manobra de Epley.
Neste artigo explico o que é a VPPB, como se confirma o diagnóstico e como funciona, passo a passo, a manobra terapêutica que ficou conhecida como "tratamento dos cristais no ouvido".
O que é a VPPB
O ouvido interno contém pequenos cristais de carbonato de cálcio — os otólitos — normalmente alojados numa zona chamada utrículo. Quando estes cristais se deslocam para dentro dos canais semicirculares, mais frequentemente o canal posterior, causam vertigens intensas sempre que a cabeça muda de posição: deitar na cama, virar de lado, olhar para cima, ou baixar para apanhar algo do chão.
Os episódios duram tipicamente entre 15 e 60 segundos, são desencadeados por movimentos específicos da cabeça e repetem-se de forma previsível. Não costuma haver perda auditiva nem zumbido associado. É precisamente este padrão — vertigem posicional, breve, sem sintomas auditivos — que orienta o diagnóstico.
Como se confirma o diagnóstico
Antes de fazer qualquer manobra terapêutica, é essencial confirmar que se trata efetivamente de VPPB do canal posterior. Esta confirmação faz-se com a manobra de Dix-Hallpike:
- O doente está sentado na marquesa.
- A cabeça é rodada 45° para o lado suspeito de estar afetado.
- É deitado rapidamente de costas, com a cabeça ligeiramente pendente para fora da marquesa.
- Observa-se o nistagmo (movimento involuntário dos olhos) e a vertigem, com as características específicas da VPPB do canal posterior.
Este passo é o que distingue uma avaliação médica de uma abordagem improvisada. Aplicar uma manobra de Epley sem confirmar primeiro qual o canal afetado pode não resolver o problema ou até converter a VPPB para outro canal, agravando temporariamente os sintomas.
A manobra de Epley: 5 passos
Uma vez confirmado o diagnóstico, a manobra de Epley consiste em:
- Posição inicial — sentado, cabeça rodada 45° para o lado afetado.
- Deitar rapidamente com a cabeça ligeiramente pendente (30°) para fora da marquesa — manter 30 a 60 segundos.
- Rodar a cabeça 90° para o lado oposto, sem levantar — manter 30 a 60 segundos.
- Virar em bloco para esse lado, rosto para baixo (135° da posição inicial) — manter 30 a 60 segundos.
- Sentar lentamente, cabeça fletida para o peito.
A sessão completa demora 5 a 10 minutos. Durante a manobra pode surgir vertigem transitória — é sinal de que os cristais estão a mover-se corretamente.
Resultados esperados
A maioria dos doentes com VPPB do canal posterior responde à manobra de Epley. A resposta pode ser imediata ou requerer 2 a 3 sessões, tipicamente uma por semana. Em alguns casos a VPPB recorre ao longo dos anos, e nessas situações repete-se a manobra. Os números exatos de eficácia variam entre estudos e populações, pelo que evito afirmar percentagens fechadas — mas clinicamente, quando o diagnóstico é correto e a manobra bem executada, a resposta é a regra.
Cuidados após a manobra
Habitualmente aconselha-se a evitar deitar sobre o lado afetado nas primeiras 24 a 48 horas e a não inclinar a cabeça bruscamente. As indicações precisas são dadas caso a caso, em consulta.
Quando a manobra não funciona
Se a vertigem persistir após 2 ou 3 sessões, ou se o nistagmo observado não for típico, deve considerar-se:
- VPPB de outro canal (requer manobra diferente — Semont, Lempert, Gufoni).
- Enxaqueca vestibular.
- Doença de Ménière.
- Neurite vestibular.
- Disfunção vestibular central (mais raro mas importante excluir).
A avaliação otoneurológica completa permite distinguir estas entidades e orientar o tratamento correto. Pode consultar o detalhe em otoneurologia em Lisboa.
Em resumo
A manobra de Epley é um dos procedimentos mais gratificantes da Otorrinolaringologia — pode resolver uma queixa extremamente incapacitante em poucos minutos. Mas a sua eficácia depende de um passo prévio fundamental: o diagnóstico correto. Se tem episódios de vertigem desencadeados por movimentos da cabeça, procure avaliação com um otorrinolaringologista com formação em otoneurologia.
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