Por Dr. Pedro Stapleton-Garcia · Otorrinolaringologista, Lisboa

Acordar com a boca seca, sentir o sono pouco reparador e ouvir repetidamente que ressona não é apenas uma questão de incómodo para quem dorme ao lado. Muitas vezes, a primeira pergunta é simples: nariz entupido pode causar ronco? Em muitos casos, sim. Mas a resposta clínica mais rigorosa é esta: pode contribuir de forma relevante, embora raramente seja o único factor.
O ronco surge quando há vibração dos tecidos das vias aéreas superiores durante o sono. Quando o nariz está obstruído, a passagem de ar nasal fica reduzida e o organismo tende a compensar com respiração pela boca. Essa alteração muda a dinâmica do fluxo de ar, favorece maior colapso dos tecidos da garganta e aumenta a probabilidade de ressonar.
Na prática, um nariz entupido pode causar ronco por três mecanismos principais. Primeiro, cria resistência à entrada de ar. Segundo, promove respiração oral, que seca e desorganiza a função normal da via aérea superior. Terceiro, agrava um estreitamento já existente ao nível do palato mole, úvula, base da língua ou faringe.
Isto explica porque algumas pessoas roncam apenas em fases de constipação, rinite activa ou sinusite, enquanto outras passam a ressonar todas as noites quando a obstrução nasal se torna crónica.
Este ponto é essencial. O nariz pode ser parte importante do problema, mas o ronco nem sempre tem origem nasal. Excesso de peso, consumo de álcool à noite, sedativos, refluxo, alterações anatómicas da garganta, posição de dormir e apneia do sono podem ter um papel ainda maior.
Por isso, tratar apenas o sintoma de congestão sem perceber a arquitectura completa da via aérea pode trazer alívio parcial, mas não resolver o problema de base. É precisamente aqui que uma avaliação especializada faz diferença.
As situações mais comuns incluem rinite alérgica, hipertrofia dos cornetos, desvio do septo nasal, sinusite crónica, pólipos nasais e edema nasal persistente por uso inadequado de descongestionantes. Em alguns doentes, coexistem duas ou três destas condições, o que torna o quadro mais arrastado.
Também é frequente encontrar doentes com nariz estruturalmente estreito ou com colapso da válvula nasal, sobretudo quando existe história de trauma, cirurgia prévia ou dificuldade respiratória antiga. Nestes casos, o doente muitas vezes habituou-se a “respirar mal” e só procura ajuda quando o ronco ou a fadiga se tornam mais evidentes.
Há uma diferença importante entre ronco simples e ronco associado a apneia obstrutiva do sono. Se, além de ressonar, existem pausas respiratórias observadas, engasgamento nocturno, sono não reparador, sonolência diurna, dores de cabeça matinais, irritabilidade ou dificuldade de concentração, é prudente investigar mais a fundo.
O nariz entupido pode piorar uma apneia já existente, mas normalmente não explica sozinho quadros mais graves. Em pessoas com apneia, a obstrução nasal também pode dificultar a adaptação a tratamentos como pressão positiva contínua, o que reforça a importância de tratar todas as componentes da via aérea.
Uma abordagem séria ao ronco não se limita a perguntar se o nariz está tapado. É necessário perceber há quanto tempo existe obstrução, se é unilateral ou bilateral, se varia com a estação do ano, se há alergias, sinusites repetidas, trauma nasal, ganho de peso, cansaço excessivo ou sinais de apneia.
O exame otorrinolaringológico permite identificar alterações anatómicas e funcionais do nariz e da garganta. Dependendo do caso, pode ser útil estudar o sono, avaliar factores inflamatórios recorrentes e, em certos doentes, considerar elementos sistémicos que influenciam inflamação, peso, metabolismo e qualidade do descanso. Esta visão mais ampla é particularmente importante em quadros crónicos, onde o problema raramente é isolado.
Se o ronco estiver claramente associado a congestão transitória, como numa infecção viral ou crise alérgica ocasional, o controlo da inflamação nasal pode reduzir significativamente o problema. Quando a obstrução é persistente, o tratamento deve ser orientado para a causa específica.
Na rinite, pode ser necessário optimizar o controlo inflamatório e ambiental. Na hipertrofia dos cornetos, o objectivo é melhorar o calibre nasal sem comprometer a função. Numa desvio do septo com impacto funcional real, a correcção cirúrgica pode fazer sentido. Se existirem pólipos ou sinusite crónica, o plano muda novamente.
O ponto-chave é este: melhorar o nariz pode reduzir o ronco, mas o resultado varia conforme o local principal da obstrução durante o sono. Se a garganta for o maior factor de colapso, tratar o nariz ajuda, mas pode não ser suficiente. É por isso que promessas genéricas raramente são medicina de qualidade.
Algumas medidas simples podem aliviar parcialmente: dormir de lado, evitar álcool à noite, tratar alergias conhecidas, fazer lavagens nasais com solução salina quando indicado e manter um peso saudável. Ainda assim, estas estratégias não substituem diagnóstico.
O uso repetido de sprays vasoconstritores sem supervisão merece cautela. Podem dar alívio rápido, mas também perpetuar a congestão e tornar o problema mais difícil de controlar.
Se ressona de forma regular, se sente o nariz frequentemente obstruído, se acorda cansado ou se alguém já notou pausas respiratórias durante o sono, vale a pena investigar. Num contexto de medicina privada orientada para causas, o objectivo não é apenas confirmar que “o nariz está entupido”, mas perceber porque isso acontece, como afecta o sono e que outras estruturas ou factores estão envolvidos.
Numa prática como a do Dr. Pedro Stapleton-Garcia, esta avaliação pode integrar o componente otorrinolaringológico com uma leitura mais ampla de factores inflamatórios, respiratórios e metabólicos, sobretudo quando o quadro é persistente e multifactorial.
O ronco é um sinal, não um diagnóstico. Se o nariz está entupido, pode estar a contribuir de forma decisiva para noites mal dormidas, cansaço e menor qualidade de vida. O passo mais útil não é adivinhar - é avaliar com precisão para tratar o que realmente está na origem do problema.
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